ela se despe de tudo, porque só assim segue,
sem voltar os olhos, apenas segue e o faz sozinha.
ela está nela mesma como ninguém jamais esteve.
existindo com coragem, pois sempre teve medo.
ela tira a roupa, aos poucos, e anda.
anda, porque quer olhar e sentir que é real.
ela anda, livre de qualquer farsa ou mentira.
tira cada foto da parede e as joga numa caixa.
vai até o espelho e pára e olha microscopicamente.
há tanto não fazia isso, talvez nunca tenha feito!
ela olha, mas olha de verdade, pois quer se ver.
é ela mesma, sendo com beleza, porque é real.
pega uma xícara de café, toma um gole.
vai até a janela e lá ela fica, imóvel.
fica, porque quer que seja real também para todos,
sem qualquer pudor, mas sem qualquer vulgaridade.
ela vê no homem essa covardia de falar sem olhar nos olhos,
essa falta de coragem de ser sem ser personagem,
essa fuga de não se sabe o quê, nem porquê.
essa distância criada porque só se é na mentira.
porque existe a má-fé de acreditar na ilusão,
porque assim é mais fácil seguir sorrindo,
porque assim se faz o descomprometimento,
porque assim se mata fácil, sem dor, mas vazio.
de pé ali, na luz de um meio-dia,
sem roupa, cabelo molhado batendo nas costas,
cortina aberta para o mundo inteiro,
ela existe e ela ri.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
terça-feira, 20 de outubro de 2009
parêntesis

você não viu essa foto. lembro que você disse que minha mão ficava bonita na sua, ou algo parecido. eu concordei. fazia sol, o dia estava lindo, era final de setembro e era domingo. tenho medo que a gente se perca um do outro.
sobre ter que mudar de caminho
notou cedo, ao acordar pela manhã, aquela lágrima seca no canto do olho. mas era mais do que uma lágrima, porque era verdade: a estrada, agora, teria que ser outra. sem telefonemas de boa noite, sem saber que cor de esmalte ele preferia nela, sem emails de saudades, sem pedra do arpoador, sem apelidos dos mais variados, sem declarações de amor. ele era para onde ela ia, logo ali na frente. então, tudo se inverteu. agora, ele era de onde ela vinha. vinha de um renascimento, de um recomeço, cheio de carinho, cheio de aprendizagem, cheio de amor, cheio de coração, cheio de graça. ela amou e ela foi amada. talvez ainda seja. mas agora, a estrada teria mesmo que ser outra. ninguém inventou como andar, de frente, em direção ao passado. e ela ainda não descobriu o que fazer com tanto amor.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
sobre como se perder em um supermercado
ali, sem saber muito bem o que fazer, de pé olhando para o café e o biscoito amanteigado, resolveu colocar tudo de uma só vez na boca, seguido de um seco gole de água. mal sabia ela o que fazia no meio de tanta gente, agora que a falta dele era presença constante no total daquilo que fazia dela ela mesma. se via agora, mais do que nunca, como um fantasma a observar um espelho em desuso, empoeirado. ela não estava mais ela, e sim uma silhueta magra e um pouco desforme, que oscilava descompassada em direção à... que?
sábado, 10 de outubro de 2009
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
sobre o adeus
do lado de fora ouvi tocar a buzina de um carro no trânsito. eram cinco da tarde de uma terça de um outubro quase qualquer (se não fosse justamente hoje). tinha acabado de me dar conta de que era real. janeiro veio em minha mente como um filme gasto. revi cada mês na mais rápida velocidade. chorei. voltei. olhei para tudo, como quem quer guardar no coração: uma mulher atravessou a rua com dois cachorros. um homem gordo abriu a porta do carro e dirigiu. um ônibus grande com os dizeres "rio tour" passou em alta velocidade. um porteiro saiu do prédio e abriu o portão para um senhor entrar. não havia quase nenhuma nuvem no céu. sua camisa era meio velha e azul. você ajoelhou na minha frente. uma lágrima sua escorreu pela minha perna esquerda. passei a mão no seu cabelo, no seu braço e na sua mão. quis te tocar todo, para nunca mais esquecer, mas não pude.
não dizendo "adeus", disse todos os "te amo" que consegui (e que não diria mais). fui embora e olhei para trás. você também tinha ido embora. fingi, quase acreditando, que era apenas uma tarde de uma terça de um outubro qualquer.
fazia tempo que não sentia tão em você o meu amor.
não dizendo "adeus", disse todos os "te amo" que consegui (e que não diria mais). fui embora e olhei para trás. você também tinha ido embora. fingi, quase acreditando, que era apenas uma tarde de uma terça de um outubro qualquer.
fazia tempo que não sentia tão em você o meu amor.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
domingo, 4 de outubro de 2009
sobre a morte
é cada minuto que passa, e ninguém conta.
são meio-dia, logo mais são seis da tarde,
mas ninguém viu. passou.
hoje contei cada minuto.
são meio-dia, logo mais são seis da tarde,
mas ninguém viu. passou.
hoje contei cada minuto.
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